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Artigo | Agronegócio e coronavírus: uma ligação pra lá de

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O agronegócio não é pop, como diz a propaganda oficial na maior rede de televisão aberta. O agronegócio mundial consome 2,3 bilhões de quilos de agrotóxicos, ou seja, veneno, e 80% de 1,5 bilhão de hectares de terra do planeta.

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Sem contar a água para irrigação muito usada na Ásia. Em 2018, 12 milhões de hectares de florestas tropicais foram substituídas por soja, dendê ou pasto para boi. Brasil e Indonésia – maior produtor de óleo de palma – responderam por 46% do desmatamento. No relatório da ONU de 2019 sobre a situação das espécies vegetais e animais no mundo aponta:

“Um milhão de espécies de animais e plantas enfrentam risco de extinção. 25% das espécies de plantas e animais estão vulneráveis. 559 das 6.190 espécies domesticadas de mamíferos usados para alimentação e agricultura foram extintas. A poluição marinha por plástico aumentou 10 vezes desde 1980 afetando 267 espécies. Todos os anos despejamos de 300 a 400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, lama tóxica e outros resíduos nas águas do planeta.”

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O uso da terra, diz o relatório da Avaliação Global sobre a Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, com sede em Bonn, na Alemanha) aparece agora como o principal fator de colapso da biodiversidade. Outros fatores: caça, exploração direta de animais, mudança climática, poluição e espécies invasoras.

No final de abril de 2020 a editora Debate, da Espanha, publicou a tradução do livro “Spillover: Animal Infections and de Next Human Pandemic”, do jornalista científico David Quammen, publicado originalmente em 2012, portanto após o surto da SARS COV 1 (2003) e da gripe aviária – H1N1 – de 2009.

Ele registra: “As atividades da humanidade estão provocando a desintegração dos ecossistemas naturais a uma velocidade cataclísmica. A construção de estradas, a extensão da agricultura baseada no desmate e queima, a caça e ingestão de animais selvagens, o desmatamento para criação de gado, o crescimento dos núcleos urbanos, a expansão das zonas residenciais, a contaminação química, a poluição dos oceanos etc. Nada disso é novo. Agora com sete bilhões de pessoas e dotados de ferramentas modernas os efeitos acumulados passam a ser críticos”.

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As florestas tropicais não são os únicos ecossistemas em perigo, porém são os mais ricos e com estruturas mais intrincadas, explica David Quammen. Nelas vivem milhões de tipos de criaturas, a maioria das quais são desconhecidas para a ciência, que ainda não as classificou como espécies e sabemos muito pouco sobre elas.

Entre essas milhões de criaturas desconhecidas existem vírus, bactérias, fungos, protistas e outros organismos, muitos dos quais são parasitários. Os especialistas em virologia falam agora em “virosfera”, um vastíssimo mundo de organismos cuja magnitude provavelmente exceda a de qualquer outro grupo.

“Será a próxima grande pandemia causada por um vírus? Sairá de uma floresta tropical ou de um mercado do sul da China? Matará a 30 ou 40 milhões de pessoas?”, questões colocadas no livro do jornalista científico, que na versão em espanhol ganhou o título de “Contágio”, a histórias de pandemias, mas principalmente das zoonoses, doenças que são transmitidas por animais aos humanos.

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Para quem não sabe a epidemia mundial de AIDS matou 30 milhões de pessoas em três décadas e, hoje em dia, outras 34 milhões estão infectadas. Em 2005, um estudo da Universidade de Edimburgo(Inglaterra) analisou 1.407 espécies reconhecidas de patógenos humanos e concluiu que 58% deles eram de origem zoonótica. Em 2008, a Revista Nature publicou um estudo dirigido por Kate E. Jones, da Sociedade Zoológica de Londres com mais de 300 casos de doenças infecciosas emergentes (EID, no inglês), ocorridas entre 1940 a 2004. A proporção de zoonoses foi de 60,3%, além disso 71,8% desses eventos foram causados por patógenos com origem na fauna silvestre e não em animais domésticos.

Nós assediamos, expulsamos, exterminamos e comemos espécies silvestres e estamos contraindo suas doenças. De todas as EID, as zoonoses procedentes de animais silvestres representam a ameaça mais importante e crescente para a saúde animal.

As dinâmicas das zoonoses são complicadas e as possibilidades inúmeras. Ainda que a ciência avance lentamente todos queremos uma resposta rápida e a pergunta mais importante é: “Que classe de germe horrível será a seguinte a emergir? Qual será sua origem imprevista? Qual o seu impacto inexorável?”, registra o estudo da Sociedade Zoológica de Londres, em 2008.

Em 1930 um frango levava 105 dias para ser abatido com 1,5kg. Ele comia 3,5kg de ração para converter em 1kg de carne. Em 2010, com 35 dias o frango era abatido com 2,6kg, com taxa de conversão de 1,839kg de ração para cada 1 kg de carne. Para quem não sabe, um químico descobriu que adicionando uma pequena quantidade de antibiótico de uso humano na ração das galinhas a digestibilidade aumentaria 10%, ou seja, ela converte mais a ração em carne.

Na região norte do Paraná, um condomínio de investidores lançou o projeto Frango 4.0. Os barracões podem abrigar 50 mil frangos – 13 frangos por metro quadrado -. O condomínio produz 7 milhões de frangos por ano. No Brasil o frango é a carne mais consumida – 45kg per capita.

E daí?, como apregoa certa figura nefasta no Brasil: o que isso tem a ver com o coronavírus?

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Tudo. O vírus, natural numa espécie de morcego do sul da China, chamada de “ferradura”, precisa evoluir, ou seja, de um hospedeiro intermediário para então chegar aos humanos. Corona é um tipo de vírus formado por RNA, o mensageiro do material genético. Ele é frágil, não tem metabolismo, só funciona evoluindo em massa e com hospedeiros que tenham grandes populações. Então: até agora a ciência não definiu quem foi o hospedeiro intermediário. As agências internacionais divulgaram que era o Civeta, um tipo de tatu, que é criado industrialmente na China. Não vingou.

Algumas organizações sociais que trabalham na assistência de pequenos agricultores e agricultoras, como o GRAIM, com sede em Barcelona, com 30 anos de existência levantaram outra possibilidade: o intermediário poderia ser o porco, ou a galinha, ou o boi confinado. Nos Estados Unidos tem 10 milhões de cabeças confinadas, no Brasil, com mais de 200 milhões de cabeças, são apenas 5 milhões. Porém, a pecuária brasileira desde os anos 1990 começou a se expandir no norte, começando pelo norte do Mato Grosso, também conhecido no meio rural como “Nortão”. Os estados da Amazônia legal tem um rebanho de mais de 70 milhões de cabeças.

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A questão é: querem voltar à “normalidade” do capitalismo esclerosado. Vai ter que começar a produzir comida de verdade e mudar totalmente o sistema de produção do agronegócio.

* Najar Tubino é jornalista

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Rodrigo Chagas e Marcelo Ferreira

Fonte: Agência Brasil

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