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Os erros e acertos da Suécia no enfrentamento da Covid-19

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A Sucia inicialmente tomou um rumo diferente da maioria dos pases no enfrentamento da pandemia de Covid-19. E foi, muitas vezes, citada como exemplo de sucesso por outros que a invejavam. Enquanto, em maro, a maioria dos governos no mundo pedia aos seus cidados que ficassem em casa, no pas nrdico, escolas primrias, restaurantes, bares e academias eram mantidos abertos.

distncia, os nmeros da Sucia pareciam pequenos. Mas bastava uma comparao mais simplista com os dos seus vizinhos, como Dinamarca e Noruega, para perceber que aquele atalho era perigoso. E, j em maio, a contagem de mortes per capita do pas disparou para uma das mais altas do mundo.

Mas isso parece ter ficado no passado. Nas ltimas semanas, a nao nrdica viu a mdia de mortes dirias cair para trs, que nada lembra o pico de 115 bitos registrado em abril. Seu nmero de mortos per capita – em torno de 581 por cada milho de pessoas – ainda muito alto. similar ao observado nos EUA (623 por milho) e Brasil (653 por milho). Mas visvel que os suecos vivem um bom momento, em nada parecido com a realidade norte-americana e brasileira.

Sucia jregistrou cerca de 90 mil casos e quase 5,9 mil mortes pela Covid-19, nmeros muito superiores aos de seus vizinhos escandinavos. Crdito: Pixabay/Pexels

O que deu certo na Sucia?

Algumas medidas suecas foram bem-sucedidas e serviram para reduzir internaes em UTIs e a quantidade de bitos. Especialistas atribuem este quadro positivo a quatro fatores principais. O primeiro a proibio de grandes reunies, que vigora h cinco meses. Isso provavelmente ajudou a retardar a transmisso da doena ao longo do tempo.

Outra medida a orientao oficial do pas pedindo s pessoas que se distanciem socialmente e trabalhem em casa. O terceiro fator o perodo de frias de vero do pas, que levou as pessoas a deixarem as cidades. E o quarto o foco renovado do governo local na melhoria da segurana em lares de idosos.

Foi somente na semana passada que o governo local suspendeu a proibio de visitas a lares de idosos. A medida entrou em vigor depois do estrago que o coronavrus provocou nestes estabelecimentos.Os moradores de lares de idosos so responsveis por quase metade das mortes por coronavrus na Sucia.

Em agosto, foi liberado o retorno de alunos com 17 anos ou mais escola. E, a partir de 1 de outubro, reunies com at 500 pessoas em eventos pblicos voltam a ser permitidas, desde que seja observado o distanciamento fsico.

ReproduUm tero da populao idosa da Sucia vive sozinha e metade dos mortos pela Covid-19 no pas so moradores decasas de repouso. Crdito: Olenka Segienko/Pexels

O pas tambm se beneficiou de uma cultura local. O perodo de frias ali bem maior do que o de outras naes: de maio a setembro. Durante esse tempo, muitos moradores deixam as cidades e partem para um longa temporada no campo, onde no h aglomerao e as pessoas passam mais tempo ao ar livre, onde a transmisso menos provvel.

Taxa de ataque secundrio

Outra vantagem o tamanho da famlia sueca tpica, composta por 2,2 pessoas, em mdia. Isso relevante porque a taxa de ataque secundrio do coronavrus mais alta entre os contatos domiciliares. Ou seja, a medida de frequncia de casos novos de uma doena entre os contatos prximos de um caso primrio da doena.

Para efeito de comparao, nos EUA e na Rssia as famlias so compostas, em mdia, por 2,6 pessoas. Jno Brasil, so 3,3. Outro diferencial positivo que um tero da populao idosa do pas nrdico vive sozinha. Na Grcia e na Espanha, este ndice cai para um quinto.

Pesquisa publicada em junho na revista cientfica Lancet, evidenciou que a taxa de ataque do coronavrus foi de 20% dentro das famlias, em comparao com apenas 6% entre o pblico em geral. Este trabalho foi liderado porAdam Kucharski, epidemiologista da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

O estudo de modelagem matemtica buscou avaliar a eficcia de isolamento, teste, rastreamento de contato e distanciamento fsico na reduo da transmisso do Sars-CoV-2 em diferentes ambientes. “Pode ser til pensar em uma epidemia como uma srie de surtos domiciliares, ligados pela transmisso entre as famlias”, defendeu Kucharski.

Reprodu

Longas frias no campo, tradio dos suecos, contriburam para esvaziar as cidades e levar boa parte da populao para lugares abertos e mais isolados. Crdito: Jonathan Petersson/Pexels

Ao ver a reduo na taxa de mortes por coronavrus, a Sucia voltou a ser usada como exemplo. Mas Kucharski ressalta que as pequenas famlias suecas tornam difcil aplicar as lies aprendidas recentemente a outros lugares.

“Antes de afirmar ‘o que o pas X est fazendo teria [o] mesmo efeito aqui’, precisamos considerar se existem diferenas importantes na estrutura populacional entre os pases”, escreveu Kucharski no Twitter. “Pode ser til pensar em uma epidemia como uma srie de surtos domiciliares, ligados pela transmisso entre as famlias”, complementou.

O equilbrio entre a Sucia e o mundo

Embora Anders Tegnell, que comanda a resposta da Sucia Covid-19, tenha mudado seu tom, e-mails obtidos por jornalistas suecos mostraram que ele inicialmente considerou se o pas poderia atingir a imunidade de rebanho. Este seria o limite no qual uma populao se contamina o suficiente e se torna imune ao vrus, interrompendo a transmisso. Em abril, Tegnell disse ao Financial Times que esperava que 40% das pessoas em Estocolmo estivessem imunes ao coronavrus at o fim de maio. Isso no aconteceu.

Outro estudo, da University College London, estimou que o nvel de infeco em Estocolmo estava em torno de 17% em abril, o mesmo de Londres. De novo, em junho, Tegnell avaliou que at 30% da populao da Sucia poderia estar imune, mas um estudo nacional mostrou que apenas 6,1% das pessoas desenvolveram anticorpos contra o coronavrus no fim de maio.

Reprodu

Anders Tegnell, responsvel pela poltica de enfrentamento Covid-19 na Sucia, reconheceu que seu pas deveria ter adotado medidas mais duras. Crdito: Anna Shvets/Pexels

Christian Althaus, epidemiologista da Universidade de Berna (Sua), disse que a ideia de que a Sucia alcanaria a imunidade de rebanho foi “sempre meio ridcula”. Os cientistas concordam amplamente que a maneira mais segura de obter imunidade de rebanho por meio da vacinao, no da infeco natural.

“Essa ideia de que, basicamente, 50%, 60%, 70% das pessoas so infectadas e ento o problema est resolvido, nunca foi realmente baseada em fundamentos cientficos”, disse Althaus. ” muito improvvel que algo assim possa ser alcanado e, mesmo que pudesse, viria – pelo menos em pases com uma demografia populacional como os pases europeus ou os EUA – com um custo enorme.”

Diante disso, Tegnell retrocedeu e admitiu que a Sucia deveria ter implementado restries mais duras. “Se encontrssemos a mesma doena com o mesmo conhecimento que temos hoje, acho que nossa resposta pousaria em algum lugar entre o que a Sucia fez e o que fez o resto do mundo fez”, declarou.

Fonte: PMDF

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