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Você sabe o que é a savanização que ameaça a Floresta

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Rica em biodiversidade, a Floresta Amazônica pode adquirir um aspecto que se assemelha ao de uma savana. A esse processo, dá-se o nome de savanização. De forma resumida, isso ocorre quando a diversidade de árvores é transformada em uma vegetação com espécies de pequeno e médio porte, com muitas áreas, inclusive, compostas por gramíneas (com folhas semelhantes a lâminas) originárias de outras partes do mundo, como da África.

O Brasil de Fato conversou com o professor Rodrigo Fadini, do Programa de Pós Graduação em Biodiversidade da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que há 15 anos estuda os impactos do processo de savanização na Floresta Amazônica. 

Fadini explica que o tipo de floresta que temos na Amazônia é a ombrófila densa, tropical, com bastante chuva. Esse tipo de vegetação presta serviços ecossistêmicos importantes, diz ele: “por hectare são toneladas de carbono estocados nas florestas preservadas da Amazônia, isso faz com que haja capacidade de mitigar os efeitos das mudanças climáticas evitando que esse carbono seja enviado para a atmosfera”, explica. 

“Outro papel importante das florestas é o de regular o clima. Então, nós temos uma massa florestal gigante aqui na Amazônia e que se sabe hoje que ela ajuda a regular o clima no mundo. Então, ela tem um efeito regional, um efeito nacional, inclusive, fornecendo chuva para o sul e sudeste do Brasil. Várias lavouras dependem da chuva que é transformada na Amazônia, é um efeito mundial“, pontua.

Confira abaixo a entrevista.

Brasil de Fato: Qual é o cenário da Floresta Amazônica hoje?

Rodrigo Fadini: Nós temos uma floresta ombrófila densa, tropical, com bastante chuva e que presta serviços ecossistêmicos importantes. Por hectare são toneladas de carbono estocados nas florestas preservadas da Amazônia, isso faz com que haja capacidade de mitigar os efeitos das mudanças climáticas evitando que esse carbono seja enviado para a atmosfera. 

Outro papel importante das florestas é o de regular o clima. Então, nós temos uma massa florestal gigante aqui na Amazônia e que se sabe hoje que ela ajuda a regular o clima no mundo. Então, ela tem um efeito regional, um efeito nacional, inclusive, fornecendo chuva para o sul e sudeste do Brasil. Várias áreas de lavouras dependem da chuva que é transformada na Amazônia, é um efeito mundial. Então, nós temos um papel importante da Amazônia. 

Nós temos várias espécies que podem ser úteis não só para fins científicos, mas para fins de aproveitamento comercial, nós temos um potencial de biodiversidade fantástico, que é pouco explorado, inclusive, nacionalmente. É uma fonte de renda inesgotável para os brasileiros que está sendo ameaçada pela ação humana. 

É correto dizer que as florestas estão sendo transformadas em savanas?

Não é que as florestas estão sendo transformadas em savanas como as savanas do cerrado e do Brasil central que são super diversas e que têm também um papel importante. Nós estamos perdendo florestas primárias, florestas altas e florestas com alta biodiversidade aqui na Amazônia para dar origem à vegetação semelhante à de uma savana. Ou seja, uma vegetação que, principalmente, é dominada por poucas espécies de árvores de pequeno e médio porte.

O extrato mais baixo dessa nova savana, que está sendo formada em novas áreas, é formado por gramíneas, pastos, geralmente espécies de gramíneas exóticas, que não são do Brasil. Várias dessas gramíneas são africanas como a brachiaria, que domina grandes áreas aqui na Amazônia e já temos problemas com isso lá no sudeste do Brasil na Mata Atlântica. 

Então, a ideia é essa: nós estamos perdendo florestas altas, florestas tropicais, densas, chuvosas para dar origem a um tipo de vegetação que se assemelha a uma savana, no entanto, que tem uma diversidade muito reduzida e que é dominada por um extrato inferior, um estrato herbáceo dominado por especies exóticas africanas principalmente. Sendo um estrato herbáceo dominado por gramíneas isso favorece, inclusive, o espalhamento do fogo. 

Qual é a relação do processo de savanização com as queimadas? Podemos dizer que o desmatamento e as queimadas estão acelerando esse processo?

O fogo é comum nas savanas naturais como as do cerrado no Brasil central, normalmente, na época chuvosa nós temos descargas elétricas e o fogo ocorre nessas áreas de savana. Dificilmente isso ocorre em uma floresta ombrófila, por exemplo, mas na Amazônia com as florestas se transformando em savanas antropizadas, ou seja, savanas criadas pelo homem, que não são naturais, isso é um agravante.

Logo, desmatamento e queimadas estão acelerando, sobremaneira, o processo de savanização e quando você tem essas savanas antropizadas e o homem colocando fogo para abertura, limpeza e abertura de pasto, essas queimadas geralmente saem de controle e, inclusive, aceleram o processo de savanização.

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Então, o processo de savanização é esse: transformar florestas preservadas em áreas que são semelhantes a savanas, no entanto, com muito menos espécies de plantas, ou seja, uma diversidade empobrecida. E quando falamos de plantas, pensamos também nos animais associados. Então, menos diversidade de animais também, menos serviços dos ecossistemas e com espécies que não pertencem ao Brasil que são essas espécies exóticas de gramíneas africanas. 

A partir de quando esse processo começou a se intensificar? Há uma data, um marco? 

Desde 2003, esse processo de desmatamento na Amazônia vem se reduzindo. Em 2018, 2019, ele começa a subir e 2019, 2020, a gente teve uma subida no desmatamento da Amazônia e também no número de queimadas.

Então, esses dois processos: o desmatamento, um processo feito pelo homem, e também as queimadas estão levando grandes áreas de florestas a se transformarem em áreas semelhantes a savanas e a pastagens pouco diversas. 

Leia também: Quais são os tipos de queimadas ilegais mais utilizadas pelo agronegócio na Amazônia 

E sendo grandes áreas é muito difícil recuperar essas áreas e muito custoso. Um processo de recuperação de uma área tão grande como a Amazônia poderia custar alguns bilhões ou até trilhões de dólares. Então, não é inteligente esperar que a Amazônia sucumba às queimadas e ao desmatamento para que a gente tenha que recuperar isso novamente. 

Hoje em dia existem algumas propostas de recuperação de algumas áreas, mas elas são muito tímidas comparadas às taxas de desmatamento e queimadas que nós temos atualmente. 

Qual seria, então, a melhor solução?

A melhor coisa a se fazer é igual você ter uma pessoa, um humano. O melhor a fazer é ter uma medicina preventiva ao invés de uma medicina curativa. O mesmo vale para o desmatamento é melhor você prevenir que ele ocorra do que depois você ter que investir dinheiro para ter que refazer uma floresta. 

É muito difícil refazer uma floresta e fazer com que essa floresta volte a ser uma floresta alta, uma floresta primária. Nós temos árvores na floresta que têm mais de 500 anos de idade. Então, é muito complicado tecnicamente e também financeiramente transformar as savanas antropizadas em novas florestas. Não é impossível, no entanto, vai demorar muito mais tempo. Logo, é preferível evitar que isso ocorra do que ter que correr atrás do prejuízo mais tarde.

Todo processo de savanização pode ser entendido como prejudicial?

Existem processos de savanização naturais e esses processos aconteceram há milhões, milhares de anos atrás. O problema é que esses processos de savanização naturais duram muito tempo, a gente nem consegue pensar na escala em que a gente vive. Eu estou falando de processos de savanização natural que ocorreram há muito tempo e como são demorados, os organismos conseguem se adaptar a essas mudanças. 

O problema é que estamos vivendo um processo de savanização que atua na escala de décadas, um processo criado pela ação humana e os organismos que vivem nesses ambientes não têm a capacidade de se adaptar tão rapidamente. Então, eles são perdidos, extintos ou suas populações são muito comprometidas por essas atividades de savanização antrópica, que está ocorrendo em uma escala de tempo muito menor para esses organismos, ou seja, uma escala de décadas e não de milhares, milhões de anos.

Edição: Rogério Jordão

Fonte: Agência Brasil

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