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Para Boulos, campanha deve tratar de fome e economia,

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“A partir de janeiro tem que ter subsídio público pra montar cozinha solidária no país inteiro”. Quem afirma é o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que concedeu entrevista exclusiva para o Brasil de Fato RS e destacou os desafios da esquerda para a campanha eleitoral que se avizinha. “A esquerda precisa trazer o tema econômico. E o da fome naturalmente que é o mais gritante”, disse.

Boulos esteve em Porto Alegre no último dia 15 para a inauguração do novo espaço da Cozinha Solidária da capital gaúcha, uma das 31 que o MTST mantém no país. A cozinha distribui refeições gratuitas para a população carente. É um projeto tocado em forma de mutirão, sem dinheiro público, em 14 estados do Brasil. Boulos também lançou na UFRGS seu livro Sem Medo do Futuro.

Para ele, o esforço para a reconstrução do Brasil a partir de 2023 envolve a retomada do investimento público, um programa amplo de combate à fome e o resgate das políticas públicas destroçadas nos últimos anos.

Confira a entrevista:

Queria começar perguntando sobre o evento em que a gente está aqui hoje, que é a inauguração da cozinha solidária, uma cozinha que nasceu de uma ocupação do MTST, e que agora tem um espaço muito mais adequado. Queria que fizesses uma avaliação sobre esses processos da cozinha solidária e também envolvendo a inauguração aqui em Porto Alegre.

Guilherme Boulos – Temos hoje 31 cozinhas solidárias no país, organizadas pelo MTST. Uma iniciativa que é muito bonita porque é coletiva, feita a muitas mãos. Desde os voluntários e voluntárias que ajudaram a pintar esse espaço em mutirão, desde as voluntárias e voluntários que estão lá dentro cozinhando a comida que o pessoal vai almoçar, até as milhares de pessoas que doaram na plataforma Apoia-se e permitiram que essas cozinhas estivessem de pé no Brasil todo.

Não tem um real de dinheiro público nessas cozinhas. É uma arrecadação solidária de milhares que veem a importância do projeto. Temos 33 milhões de pessoas com fome no Brasil. É inacreditável. É o terceiro maior produtor de alimentos do mundo, exporta comida pra China, pra Europa, pros Estados Unidos, pro mundo inteiro, e aqui as pessoas estão na fila do osso, estão comprando pele de frango, estão revirando lixo pra comer. Então, a cozinha solidária é mais necessária do que nunca. Quem deveria fazer esse tipo de coisa é o governo.

Estamos com mais de 30 cozinhas em 14 estados do Brasil. Outras cozinhas também pegaram espaços abandonados e requalificaram. Ocuparam, como foi feito aqui e aqui foi despejada uma cozinha solidária, um espaço que está servindo comida para as pessoas. Reinaugurar aqui é uma vitória muito simbólica. Em um espaço bonito que a turma ralou, suou, pra poder preparar. Então, acho que é um dia muito importante pra luta contra a fome no nosso país.

O movimento social está fazendo o que o governo não faz porque temos um governo omisso, desumano, indiferente com o sofrimento e a dor das pessoas. A reinauguração da cozinha de Porto Alegre é muito simbólica. Fiz questão de vir também por isso, porque aqui nós tivemos a primeira inauguração e foi um fato político na cidade. Nunca vi uma cozinha solidária ser despejada.



“Cozinha não alimenta só a barriga. Alimenta a alma, sonhos, esperanças”, disse Boulos em sua passagem por Porto Alegre / Foto: Isabelle Rieger

O que significam as cozinhas solidárias para a transformação que se precisa no Brasil? Porque, além de um espaço em que se dá comida, se discute a vida, se fala de política, se faz formação.

Cozinha não alimenta só a barriga. Alimenta a alma. Esses espaços alimentam esperança, sonhos, valores. A gente vive numa sociedade, ainda mais com essa cultura do ódio que o bolsonarismo impregnou no Brasil, de que é cada um por si. Se o teu vizinho tá passando fome, ah… é problema dele. Se alguém tá jogado na rua, morrendo de frio, sem ter o que comer, se uma criança tá pedindo esmola no semáforo, problema dela. Uma cultura de indiferença, de não ser capaz de sentir a dor das outras pessoas.

A cozinha solidária é também uma inspiração, um exemplo da sociedade que a gente quer. De que não é cada um por si não. É princípio coletivo. É solidariedade. É gente ser capaz de sentir a fome, mesmo que a gente não esteja com fome, mas que a gente sinta a fome de quem tem e faça algo com isso. Não temos nenhuma ilusão de que a cozinha solidária vai resolver a fome no Brasil. Temos 31 cozinhas e temos 33 milhões de pessoas com fome. Não há solução para a fome sem política pública. O que estamos fazendo é um exemplo e que pode inspirar inclusive políticas públicas.

O Lula esteve almoçando numa cozinha solidária lá em Santo André, em São Paulo, há dois meses. Almoçou conosco na cozinha e depois conversamos. Falei: “Lula, isso precisa virar política pública, você ganhando a eleição, a partir de 2023”. E eu tenho muita convicção de que o Lula vai ganhar essa eleição.

A partir de janeiro do ano que vem tem que ter subsídio público pra montar cozinha solidária no país inteiro articulada com a agricultura familiar, gerando crédito pro pequeno, pro médio agricultor, com alimentação saudável. Criar uma rede como era o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos dos governos Lula e Dilma) que o Bolsonaro desmontou, como era o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) que o Bolsonaro desmontou. Você ajuda nas duas pontas. Cria um crédito para o pequeno e médio agricultor e cria rede de distribuição para cozinhas solidárias, geridas pelos movimentos sociais.

E aqui nós estamos mostrando capacidade de gestão. Aquele movimento social que o preconceito da direita chama de vagabundos, de invasor, de gente que não quer trabalhar. Estamos demonstrando capacidade de gestão a partir do nada. Não tem um orçamento. É doação das pessoas.

Pensando ainda nesse papel da articulação entre os movimentos sociais: como se consegue explicar isso para o grande público? A importância disso para além de uma articulação apenas dos movimentos? A importância que os movimentos têm, ainda mais fortalecidos pelo poder do Estado, para transformar isso num sentido mais amplo?

As ruas antecedem as instituições. O movimento social abre as portas e vai criando condições pra que a institucionalidade, muitas vezes sob a pressão dos movimentos sociais, transforme isso em política pública. A cozinha tem um elemento pra além inclusive da segurança alimentar. Em várias das cozinhas que a gente montou pelo Brasil, na hora do almoço é cozinha, de tarde tem aula do cursinho pré-vestibular, de noite tem educação de jovens e adultos e alfabetização, depois tem biblioteca, tem espaço das crianças. Ou seja, o espaço da cozinha se torna um espaço comunitário e que também se articula com outras iniciativas de cultura, de educação, de lazer.

A gente fez esse diálogo com o Lula e o Lula acenou muito positivamente. Ficou inclusive bastante impressionado com a organização da cozinha, e disse: “Vamos transformar isso numa política pública”. É evidente que, num governo Bolsonaro, não há hipótese de virar política pública. Nada de bom vira política pública no governo Bolsonaro. Aliás, se o Bolsonaro pudesse, acabava com as cozinhas solidárias. Mas não está na mão dele.

A gente vai ter uma campanha dura. Apesar das pesquisas indicarem uma certa vantagem do ex-presidente Lula ninguém tem a ilusão de que não vai ser uma campanha dura. Como avalias que tem de ser trazida essa questão da fome que hoje, como as pesquisas indicam, é um tema central, com 33 milhões passando fome. O tema da fome tem que ser central na disputa não só pelo Palácio do Planalto, mas também na disputa parlamentar, ou mesmo aqui na disputa no Rio Grande do Sul?

A grande disputa desse ano vai ser a definição de qual vai ser a agenda política da eleição. Bolsonaro vai querer fazer um repeteco de 2018. Vai querer que a gente passe esse ano inteiro até outubro discutindo um kit gay que nunca existiu, uma ameaça comunista imaginária, o AI 5, sabe, o Supremo Tribunal Federal, ataques às liberdades… Vai querer botar uma pauta paralela, uma realidade paralela ao que o povo brasileiro está vivendo, como inclusive uma manobra de distração em relação aos grandes temas que afetam a maioria. Não podemos cair nessa cilada. Não podemos entrar na pauta do Bolsonaro e deixar ele ditar a agenda política eleitoral. Precisamos debater nas eleições incansavelmente a fome, o desemprego, a inflação dos alimentos, o preço da gasolina, o preço do bojão de gás. Esta é a agenda.

É a agenda da eleição, porque essa é a agenda do país. É o que as pessoas estão sofrendo no dia a dia. Estou muito convencido que, tanto na campanha nacional do Lula, como nas campanhas proporcionais, como nas campanhas para os governos dos estados, que a esquerda precisa trazer o tema econômico. E o da fome naturalmente que é o mais gritante. Como tema central do país. Sabe por que? Porque, em relação a isso, o bolsonarismo não tem nada a dizer. Eles não tem proposta alguma. Só tem destruição, devastação de política pública.

Pega um exemplo: Conab, Companhia Nacional de Abastecimento. Historicamente, a Conab tem uma política de estoques reguladores. Então, a Conab vai lá, estoca feijão, estoca arroz, estoca milho, estoca soja, em vários armazéns espalhados pelo Brasil. Aumentou o preço do feijão, seja por uma especulação no mercado de commodities ou porque teve uma safra ruim, aumentou o preço do feijão, o que que a Conab fazia? Pegava feijão e botava no mercado. Qual era o resultado disso? Baixava o preço do feijão pela (maior) oferta. Bolsonaro vendeu mais de 30 armazéns da Conab só no primeiro ano de governo. Hoje, o estoque de feijão da Conab não dá pra um dia de consumo nacional.

E aí temos a inflação dos alimentos. Ele diz que é pela guerra da Ucrânia. Coisa nenhuma! A inflação de alimentos é porque eles destruíram as políticas de contenção de inflação de alimentos. A mesma coisa em relação ao combustível e em relação ao bojão de gás. Temos que debater é isso com o povo brasileiro: fome, desemprego, desigualdade e inflação.



“A inflação de alimentos é porque eles destruíram as políticas de contenção de inflação de alimentos” / Foto: Isabelle Rieger

Falando em Bolsonaro, a Eletrobras foi vendida. Um dos compradores é o segundo homem mais rico do país, o Lemann, que também comprou a CEEE-E, distribuidora de energia aqui no estado. A Eletrobras foi vendida sem resistência real nas ruas. Como combater isso?

Eu estava na manifestação em frente à Bolsa de Valores de São Paulo, onde foi efetivado o leilão. A venda da Eletrobras vai gerar num curto prazo aumento do preço da energia elétrica para todos os consumidores do Brasil. Isto do ponto de vista prático. Do ponto de vista mais político, a venda da Eletrobras significa a perda da soberania energética. Nenhum país que se preze abre mão da sua soberania energética.

Falando de geração de energia e linhas de transmissão de energia, sabe quem comprou várias das linhas de transmissão, que já tinham sido vendidas antes da perda do capital majoritário da União na Eletrobras? Estatais chinesas. Como é que é isso? Abre-se mão da soberania energética e entrega pra uma estatal de um outro país? E essa é a turma que dizia “Brasil acima de tudo”, que usou e perverteu os símbolos nacionais pra fazer o governo de lesa pátria. É muito grave. Nossa capacidade de mobilização está aquém do que a gente gostaria e esperaria. Mas nossa luta vai ter que ser um grande processo de pressão para, após a derrota do Bolsonaro, a partir do ano que vem, espero que num governo Lula, promover a reestatização da Eletrobras.

O que eles querem agora é fazer desse governo uma xepa de feira e, nos últimos seis meses, entregar tudo. Já se fala na privatização da própria Petrobras, através de vendas de ações para perder o controle majoritário, de ações do BNDES – o BNDES detém 10% ou 12% das ações da Petrobras – que são da união e a privatização dos Correios. Vão querer entregar tudo que puderem entregar. A batalha nossa é chegar e dizer: “Fundo financeiro, você que vem da China, da Noruega, dos Estados Unidos, é o seguinte: se comprar não tem segurança jurídica, se agora entrar na xepa da feira do Bolsonaro, ano que vem vai ser revisto”. Tem que ser dito com todas as letras.

Pensando ainda nesse Brasil devastado que o próximo governo vai encontrar, o que entendes como prioridade para incluir a população que está sofrendo com esse processo de ampliação cada vez maior da desigualdade?

Temos que ter três grandes prioridades de reconstrução nacional no pós-Bolsonaro.

Primeira: retomar o investimento público com um grande plano de obras públicas em infraestrutura, em moradia popular, em infraestrutura urbana, saneamento básico. Por que? Porque um plano de obras públicas permite geração de emprego na veia, rápida e em massa. Precisamos combater o desemprego. Um país com 12 milhões de desempregados será um país com fome. Geração de emprego e renda não vai vir só com investimento privado. Aliás, investimento privado só vem quando tem demanda. Quem sai da crise, aqui e em qualquer parte do mundo e em qualquer momento da história, é o estado com investimento público. Eles secaram o investimento público. Vai ser preciso derrubar o teto de gastos pra fazer um plano de investimentos.

Segundo: vamos ter que ter uma política específica de combate à fome, que passa pela reestruturação da Conab, por um programa de cozinha solidária nacional, pela reestruturação das políticas de crédito, assistência técnica e de estímulo de comercialização dos pequenos e médios produtores, pelo fim da isenção de impostos pro agronegócio exportador. Sabe porque? Porque é que tem essa contradição do Brasil ser o maior produtor de soja do mundo e o óleo de soja ser o produto que puxou a inflação de alimentos aqui? Porque você chega pro grande produtor, pro Blairo Maggi, lá no Mato Grosso do Sul, que produz soja, ele vai querer vender soja pro mercado interno ou vender pro mercado externo em dólar? Com o dólar a R$ 4 e alguma coisa? É lógico que vai vender pro mercado externo. Até porque tem isenção de imposto pra exportação do agronegócio. Acabar com essa isenção de imposto. Temos que criar mecanismos para priorizar o mercado interno em relação à exportação. É inacreditável. Desce um marciano aqui e você tenta explicar pra ele: ‘Olha, aqui no Brasil nós somos os maiores produtores de alimento mas o povo está passando fome’. Ele não vai entender.

E terceiro: a reestruturação das políticas públicas do estado brasileiro que foram destruídas. Retomar investimento no SUS, retomar expansão da rede de universidades federais para ampliar mais o acesso, mais investimento na educação básica, retomar programa de moradia popular. Olha a quantidade de gente morando nas ruas das grandes cidades. São essas três prioridades num primeiro momento para o combate às desigualdades

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Ayrton Centeno





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