O transtorno do espectro autista (TEA) foi descrito, por décadas, com base em estudos feitos principalmente com meninos. Hoje, a medicina já sabe que meninas e mulheres também apresentam o mesmo núcleo do transtorno — dificuldades na comunicação social e padrões restritos de comportamento —, mas esses sinais podem surgir de forma mais sutil e menos reconhecida.
Dados indicam que um terço das mulheres recebe o diagnóstico só depois dos 20 anos, enquanto isso ocorre com 9% dos homens. Na primeira infância, entre 0 e 4 anos, o reconhecimento do autismo acontece em 61,6% dos meninos, mas só em 37,2% das meninas.
Ou seja, não se trata da ausência de características e sintomas, mas de uma manifestação que muitas vezes passa despercebida ou é confundida com traços de personalidade. Essa diferença na apresentação pode ajudar a entender o atraso no diagnóstico feminino.
A mesma base, mas com manifestações diferentes
Os critérios para diagnosticar o transtorno do espectro autista são iguais para homens e mulheres. O que muda é a forma como os sinais se expressam no dia a dia. Nas meninas, é mais comum existir o desejo de fazer parte de grupos e manter amizades.
Para isso, elas observam os amigos com atenção, analisam expressões faciais, decoram respostas e aprendem regras sociais para se encaixar. Já nos meninos, os comportamentos atípicos costumam ser mais evidentes.
Com meninas e mulheres, em vez de atitudes que chamam atenção, podem surgir ansiedade frequente, sensação persistente de inadequação e exaustão depois de interações sociais.
“Durante décadas, a maior parte das pesquisas e dos critérios diagnósticos foi baseada principalmente em meninos. Isso criou uma espécie de molde clínico masculino do autismo. Por isso, quando a apresentação foge desse molde, o reconhecimento se torna mais difícil. Além disso, comportamentos de retraimento em meninas podem ser interpretados como timidez ou sensibilidade”, explica o médico psiquiatra Adiel Rios, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
Camuflagem social dificulta o diagnóstico
Um dos fatores que mais contribuem para o diagnóstico tardio em mulheres é a chamada camuflagem social, também conhecida como masking. Na prática, significa esconder ou compensar dificuldades para se adequar ao ambiente.
Isso pode incluir copiar gestos e expressões, ensaiar previamente o que será dito, manter contato visual mesmo com desconforto e conter movimentos repetitivos. Como muitos instrumentos de avaliação foram construídos para identificar sinais mais evidentes, essa adaptação pode dificultar a identificação do transtorno.
“Muitas mulheres só recebem diagnóstico quando o mecanismo de compensação entra em colapso — frequentemente em fases de maior exigência, como universidade, mercado de trabalho ou maternidade. O que parecia ‘funcionamento adequado’ era, na verdade, esforço contínuo”, ressalta a neuropsicóloga Leninha Wagner, de Florianópolis.
Interesses intensos, mas socialmente aceitos
Os interesses restritos, característicos do espectro autista, também aparecem em meninas e mulheres. A diferença é que, muitas vezes, eles recaem sobre temas considerados comuns para a idade, como livros, animais, artistas ou assuntos escolares. Por serem socialmente aceitos, não costumam despertar suspeita.
O que distingue esses interesses é a intensidade e a rigidez. Pode haver dedicação excessiva a um único tema, necessidade de falar repetidamente sobre o assunto e dificuldade para mudar o foco. Além disso, comportamentos repetitivos tendem a ser mais sutis, como mexer discretamente nas mãos, contrair músculos ou manipular objetos pequenos.
Sinais ignorados na infância
Na infância, características do espectro em meninas costumam ser interpretadas como timidez, sensibilidade ou maturidade precoce. Brincadeiras repetitivas e muito organizadas, dificuldade em lidar com mudanças, incômodo com sons e texturas e amizades intensas, porém desequilibradas, raramente são investigadas como possíveis sinais de TEA.
Anos depois, já adultas, essas mulheres procuram atendimento por ansiedade, depressão ou conflitos nos relacionamentos. Sem analisar a trajetória desde a infância, o diagnóstico tende a focar só nesses problemas. Nesse contexto, o aumento recente de casos de autismo entre mulheres reflete maior atenção aos sinais que antes eram confundidos ou ignorados.