Em algumas regiões do planeta, o inverno pode levar os termômetros a níveis difíceis de imaginar. Em Yakutsk, na Rússia, considerada uma das cidades mais frias do mundo, temperaturas já chegaram a −62°C. No norte do Canadá, locais como Snag também registram marcas históricas de frio extremo.
Apesar das condições severas, milhões de pessoas vivem nessas áreas e conseguem manter uma rotina relativamente normal. Mas, como o corpo humano reage e se adapta a ambientes com temperaturas tão extremas?
Segundo especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o organismo possui mecanismos automáticos de defesa que entram em ação quando a temperatura externa começa a cair drasticamente.
O cardiologista Anis Mitri, presidente da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (AHOSP), explica que a primeira reação do corpo ao frio intenso é preservar o calor interno.
“A primeira resposta do organismo é a vasoconstrição. O corpo reduz a circulação de sangue nas extremidades, como nariz, orelhas, mãos e pés, para proteger órgãos vitais”, afirma.
Logo depois surgem os tremores, contrações musculares involuntárias que ajudam a gerar calor. Nesse processo, também ocorre aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial, o que contribui para manter a temperatura corporal.
Se a exposição ao frio extremo ocorre por longos períodos e sem proteção adequada, o risco passa a ser mais grave. “Pode ocorrer hipotermia e, em casos mais avançados, o congelamento de tecidos, conhecido como frostbite. Nessa situação, principalmente dedos das mãos e dos pés podem congelar e sofrer lesões importantes”, explica Mitri.
Adaptação ao frio e ao calor
A adaptação do organismo a ambientes muito frios não acontece de forma imediata. De acordo com Mitri, esse processo pode levar semanas ou até meses.
Com o tempo, o corpo passa a controlar melhor os tremores e a circulação nas extremidades se torna mais eficiente. O metabolismo também se ajusta, reduzindo efeitos neurológicos associados à queda da temperatura corporal, como sonolência e lentidão mental.
No calor extremo, o mecanismo de adaptação segue outra lógica, mas com o mesmo objetivo de manter a temperatura interna estável.
“O organismo passa a suar mais cedo e de forma mais eficiente. O suor também perde menos sal, o que ajuda a preservar eletrólitos e reduz o impacto da desidratação”, explica o cardiologista.
Segundo ele, o coração também se adapta para bombear sangue com menor sobrecarga durante períodos prolongados de calor intenso. Populações que vivem por muitos anos em regiões de clima severo também desenvolvem adaptações comportamentais importantes.
“Isso inclui mudanças nas roupas, na alimentação, na forma de construir as casas e na organização da rotina diária”, afirma Mitri.
Limites da adaptação
Apesar dessas adaptações, o corpo humano também tem limites quando exposto a temperaturas muito extremas.
A clínica geral Giovana De Paula, da Santa Casa de Misericórdia de Chavantes, em São Paulo, explica que pessoas acostumadas a climas severos podem desenvolver certa tolerância fisiológica, mas isso não elimina totalmente os riscos.
“Populações expostas por muitos anos ao frio ou ao calor tendem a apresentar maior tolerância. No calor, por exemplo, o organismo aprende a suar de forma mais eficiente. No frio, há melhor controle vascular”, afirma.
Mesmo assim, fatores como exposição prolongada, esforço físico intenso, doenças ou desidratação podem levar rapidamente a complicações.
“Existe um limite para essa adaptação. Quando os mecanismos compensatórios falham, podem surgir quadros como hipotermia, exaustão pelo calor ou insolação, que são situações potencialmente fatais”, alerta.
Por isso, reconhecer sinais de alerta é fundamental. No frio extremo, sintomas como tremores intensos seguidos de confusão mental, fala arrastada, apatia ou extremidades muito pálidas ou endurecidas podem indicar perigo.
Já em ambientes muito quentes, tontura, fraqueza, dor de cabeça, pele muito quente, confusão mental ou ausência de suor e urina são sinais de gravidade.
“Nessas situações, a avaliação médica deve ser imediata, porque a deterioração do quadro pode ocorrer rapidamente”, orienta a médica.