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Com rap, professor de Santa Maria ganha ‘Oscar’ da Educação

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A cultura transforma. A educação traz oportunidades. A junção dessas fontes de conhecimento é tão poderosa que pode mudar radicalmente a vida de jovens infratores. É o que mostra o professor Francisco Celso, eleito um dos 50 melhores professores do mundo, de acordo com o Teacher Prize 2020, prêmio mundial que homenageia educadores e é organizado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

Nesse momento de pandemia e aulas remotas, Francisco publicou vídeos, lançou livros, CDs, além do curta-metragem Sobrevivendo no Inferno, premiado na Rússia | Foto: Divulgação/Secretaria de Educação

Com o projeto RAP: Ressocialização, Autonomia e Protagonismo, o professor usa linguagens artísticas como fonte de propostas educacionais no Núcleo de Ensino da Unidade de Internação de Santa Maria.

“Foi quando fui para o sistema socioeducativo, em 2015, que comecei a trabalhar especificamente com o rap. Percebi que os socioeducandos não se enxergavam nas histórias contadas nos livros didáticos, mas eles se viam nas histórias narradas nas letras de rap”Professor Francisco Celso

Lixão com flor

Francisco fala sobre realidade e poesia. Explica a origem do rap como a união entre ritmos e versos que narram contextos sociais. “Onde estiver, seja lá como for, tenha fé, porque até no lixão nasce flor”. Ao cantar trecho da música Vida Loka, dos Racionais MC’s, o professor explica a prática do rap no sistema socioeducativo.

Hoje, o projeto RAP é premiado. Francisco é um dos 50 melhores professores do mundo e dedica toda sua trajetória aos socieducandos. Neste momento de pandemia e aulas remotas, ele publicou vídeos, lançou livros, CDs, além do curta-metragem Sobrevivendo no Inferno, premiado na Rússia.

Com recursos do projeto, conseguiu colocar televisores no Núcleo de Ensino da Unidade de Internação de Santa Maria, onde envia vídeo-aulas para agentes sociais passarem para os estudantes, além dos materiais impressos.

“Lá [na cadeia], o cenário é mais ou menos esse. Um ambiente de muito sofrimento e de muito silenciamento dos corpos e das vozes. É um ambiente que tem muitos comportamentos autodestrutivos, mas que, mesmo nesse contexto de muito sofrimento, ainda existe muito potencial, muitas flores brotando”, aponta o educador.

“A verdadeira disciplina é o projeto comum, construído com eles, para eles e executado por eles, sempre estimulando o protagonismo e autonomia dos estudantes”, explica o professor.

Para os socioeducandos, o rap é inspiração, manifestação artística e forma de expressão | Foto: Divulgação/Secretaria de Educação

“Talvez eu tenha sido ali a pessoa que teve essa sensibilidade de perceber que eles não são copos vazios. Eles carregam letramentos que muitas vezes nós, professores, não temos. Eles trazem essa potência. O que eu faço é dar oportunidade para que essa potência seja amplificada”Professor Francisco Celso

Poesia que transforma 

“Precisamos mudar um pouco o imaginário social que enxerga os socieducandos como meninos-problema e meninas-problema. A verdade é que são meninos e meninas com muitos problemas. Enxergam eles como sendo violentos, mas a realidade é que são pessoas que sofreram várias formas de violência, desde os primeiros anos de vida e que, de repente, reproduzem violência, porque foi a pedagogia que foi ensinada para eles”, explica.

Segundo Francisco, a partir do momento em que são apontados novos caminhos, os jovens mostram o potencial e o talento que tÊm. Porém, para conquistar esse processo simultâneo de desconstrução e construção, é preciso mergulhar em referências cotidianas e, por meio delas, ampliar uma visão de mundo.

“Foi quando fui para o sistema socioeducativo, em 2015, que comecei a trabalhar especificamente com o rap. Percebi que os socioeducandos não se enxergavam nas histórias contadas nos livros didáticos, mas eles se viam nas histórias narradas nas letras de rap”, conta o professor.

Formado em história desde 2003 e professor da Secretaria de Educação desde 2008, ele explica que não escolheu o rap como ferramenta pedagógica, foram os próprios estudantes.

“Talvez eu tenha sido ali a pessoa que teve essa sensibilidade de perceber que eles não são copos vazios. Eles carregam letramentos que muitas vezes nós, professores,não temos. Eles trazem essa potência. O que eu faço é dar oportunidade para que essa potência seja amplificada”, afirma.

Mudança de trajetória

A realidade pode se apresentar com muito sofrimento, mas é, a partir dela, que o professor chama uma transformação: “Espero que, em um futuro próximo, as letras deles e delas não cantem só dor e só sofrimento, mas que cante mais flores também, coisas bonitas e belas. Tudo isso depende de uma mudança de trajetória de vida”.

“Escutava a rádio Manchete, um programa de black music chamado Mix Mania. Ali comecei a pegar gosto. Fiz um curso de DJ em uma loja de disco no Venâncio 2000, ministrado na época pelo DJ Chocolate e comecei atuar como DJ tocando no Guará”, lembra.

Na época, o rap era um dos pedidos recorrentes durante os shows e, ainda como estudante, Francisco viu a interação com o rap sair da descontração de festas e chegar até a sala de aula.

* Com informações da Secretaria de Educação

Fonte: Agência Brasília

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