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O abismo, o poço, a imagem no espelho, a dor, a ameaça à existência. Com esses elementos comuns, expressões de sentimentos que a pandemia da covid-19 tornou familiares, quatro exposições distintas aguardam o público no Museu Nacional da República (MUN) a partir de sexta-feira (28).

O espaço foi autorizado a funcionar por portaria da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) publicada na segunda-feira (24) dentro de rígidos protocolos de segurança sanitária.

“Os museus abrem as suas portas de forma segura e sem riscos de aglomerações, tornando-se alternativas prudentes de experiência artística para a população”, aponta o secretário, Bartolomeu Rodrigues.

A arte de Alex Vallauri
A arte de Alex Vallauri

Os visitantes encontrarão uma novidade na estrutura arquitetônica interna. A diretora do MUN, Sara Seilert, conta: “Nós desmontamos a Galeria Acervo para recuperar a arquitetura original do prédio. Agora, podemos ver o mezanino suspenso por tirantes, sem nenhum pilar, como no projeto original de Oscar Niemeyer. O contato direto com as obras de arte e com o prédio do Museu é algo que queremos incentivar com atenção à saúde coletiva”.

Assim, o público terá a oportunidade de conhecer exposições inéditas, com destaque especial ao artista Alex Vallauri, que propõe uma aproximação com o ambiente das ruas, por meio da linguagem do grafite e do estêncil.

“Ele propõe uma montagem inusitada para o Museu, com andaimes e tapumes, em contraste com o formato semiesférico e a estética do prédio”, acrescenta a diretora.

A galeria principal expõe a arte de Alex Vallauri (1949-1987). Nascido na Etiópa, o grafiteiro, artista gráfico, gravador, pintor, desenhista e cenógrafo, emigrou para o Brasil, em 1965, transferindo-se para a capital paulista depois de uma estada em Santos, onde se iniciou em xilogravura.

O texto de apresentação da exposição, que leva o nome do autor e tem curadoria de Fabrícia Jordão, traz “a poética e o pensamento do artista, atualizando-os com noções de arte urbana brasileira e suas relações e disputas com o espaço urbano patrimonializado de Brasília, com suas esferas públicas”.

Vallauri substitui as técnicas do grafite tradicional por grandes moldes conhecidos como estêncils (técnica de pintura que utiliza o molde vazado para aplicar um desenho em qualquer superfície), que usou para estampar paredes e muros das cidades que marcou com sua arte. Ele povoa o ambiente com os elementos identitários de sua poética urbano-espacial: a bota, o telefone, a bailarina e o frango assado.

Arte espalhada

A dor surge na obra de Suyan de Mattos, na Sala 2, com “A Mulher Forte Arrancou a Dor e a Aprisionou Numa Caixa”. “A exposição trata da dor que é subjetiva, complexa e difícil de definir”. O texto de apresentação diz que há 10 anos a artista adoeceu e passou a sentir dor diariamente. Isso levou-a a mudar a linguagem artística. Por não conseguir mais pintar grandes telas buscou no bordado um modo de “ativar e misturar suas experiências de vida para produzir um padrão individual, único e inimitável”, que a tornasse “a bordadeira do próprio destino”.

O curador, Ralph Gehre, poetiza: “A mulher forte arrancou sua dor, a aprisionou numa caixa e alegou a superação de um passado. Não apenas uma exposição de pinturas-bordados-desenhados, mas o relato do percurso épico em que o herói de tantos enfrentamentos é na verdade uma heroína. Não Alice acidentada em um lugar descabido, cheio de truques e pequenas ameaças, introjetada em sonho no fundo de um poço. Não uma sereia encantadora, cantante, ameaçando marinheiros, ou uma bruxa como Circe em sua ilha, transformando homens em porcos. Não uma mulher servindo ao heroísmo de um homem. Uma mulher apenas, independente do mundo e submetida ao seu próprio corpo, escrevendo seu relato de superação”.

O artista, marchand e empresário Marcos Amaro festeja a reabertura do MUN: “Fico muito feliz. Meu trabalho tem um diálogo muito grande com o momento que estamos vivendo. O traço existencialista presente nele traduz o maior contato de cada um consigo mesmo. As pessoas estão enclausuradas e anseiam por liberdade. É fundamental esse momento de reaproximação com a arte”, elabora o paulistano que cita Heráclito, Heidegger e Nietszche para justificar os traços presentes em “O Poço”, exposição no Mezanino cujo conceito é uma interpretação filosófica da natureza do ser, da existência e da realidade.

Na Galeria Térreo, Marçal Athayde, em “Decifra-me ou Te Devoro – O Enigma da Cidade”, reúne 32 obras nas quais o artista aborda as relações e tensões entre o sujeito e a cidade, num questionamento sobre a vida moderna que os tempos atuais de pandemia tornam ainda mais necessário.

O curador Rafael Peixoto afirma que “a produção de Marçal é contemporânea pelo tratamento dado às imagens e pelo olhar carregado de crítica política e social, mas traz em sua essência o mesmo questionamento moderno sobre as relações do sujeito com seu entorno e, mais especificamente no seu caso, do homem com a cidade”.

Período: sexta a domingo, das 10h às 16h.

Lotação do salão: 30 pessoas. Completada a capacidade, será formada fila de espera.

Observação: obrigatórios o uso de máscara e tapete sanitizante. Será feita medição de temperatura e disponibilizado álcool em gel. Telefone para dúvidas: (61) 3325-5220.

Endereço: Setor Cultural Sul, Lote 2, próximo à Rodoviária do Plano Piloto, Brasília – DF

Entrada gratuita

Programe-se:

Alex Vallauri (1949-1987): “Alex Vallauri” (Galeria Principal até 22 de agosto)

Marçal Athayde: “Decifra-me ou Te Devoro – O Enigma da Cidade” (Galeria Térreo até 8 de agosto)

Marcos Amaro: “O Poço” (Mezanino até 22 de agosto)

Suyan de Mattos, “A Mulher Forte Arrancou a Dor e a Aprisionou Numa Caixa” (Sala 2 até 8 de agosto)

* Com informações da Secretaria de Cultura

Fonte: Agência Brasília

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