Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado nesta terça-feira (3/2) aponta que 40% dos casos de câncer diagnosticados no mundo todo estão ligados a fatores preveníveis.
De acordo com a análise, quatro em cada 10 casos de câncer poderiam ser evitados com mudanças de hábitos, políticas públicas mais eficazes e maior acesso à prevenção. Os dados mostram que, só em 2022, aproximadamente 7,1 milhões de novos casos de câncer foram associados a causas consideradas evitáveis.
Tabaco lidera os fatores de risco
Com base em dados de 185 países e 36 tipos de câncer, o levantamento da OMS aponta que a maior parte dos casos está associado a comportamentos do cotidiano. Entram nessa lista o tabagismo, o consumo de álcool, o excesso de peso, a falta de atividade física, a poluição do ar e a exposição excessiva ao sol.
Pela primeira vez, o relatório também incluiu infecções que aumentam o risco de câncer, como o HPV e a bactéria Helicobacter pylori. Entre todos esses fatores, o cigarro aparece como o principal vilão, com o tabagismo respondendo por 15% de todos os novos casos de câncer no mundo.
Depois do tabaco, vêm as infecções relacionadas ao câncer, responsáveis por 10% dos diagnósticos, e o consumo de bebidas alcoólicas, que aparece associado a 3% dos novos casos.
“O tabagismo é responsável por parte dos casos de câncer de pulmão, laringe, da boca, do esôfago, bexiga, pâncreas e etc. A questão do cigarro no mundo ainda é uma catástrofe e continua sendo também no Brasil, embora nós já tenhamos avançado muito. Ressalto a importância de também estarmos atentos com a questão do cigarro eletrônico que tem sido uma ameaça constante”, explica o diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni.
Três tipos de câncer respondem por quase metade dos casos que poderiam ser prevenidos: o de pulmão, ligado ao tabagismo e à poluição do ar; o de estômago, associado à infecção pela H. pylori; e o de colo do útero, causado principalmente pelo HPV.
Homens são mais impactados do que mulheres
O relatório da OMS aponta uma diferença expressiva entre os sexos quando se trata de câncer ligado a causas evitáveis. Globalmente, 45% dos casos novos entre homens estão associados a fatores que poderiam ser prevenidos, contra 30% entre as mulheres.
Entre os homens, o tabagismo é o principal fator, responsável por cerca de 23% dos novos diagnósticos de câncer. Em seguida, aparecem as infecções associadas à doença (9%) e o consumo de álcool (4%), que continuam tendo um impacto grande no aumento dos casos.
Já entre as mulheres, as infecções são o principal fator de risco, ligadas a 11% dos novos casos de câncer, o que reforça o papel da vacinação e da prevenção de doenças como o HPV.
“O Brasil tem um programa nacional de imunizações muito bem estruturado e presente em todo o país. Mas é preciso torná-lo mais eficaz, ampliando a cobertura e alcançando mais pessoas. Isso exige investimento, divulgação e uma logística capaz de chegar a todas as regiões, além de enfrentar a desinformação promovida por grupos antivacina, que representam um grande desserviço à saúde pública”, ressalta Maltoni.
Na sequência, também vêm o tabagismo (6%) e o índice de massa corporal elevado (3%), indicando que o excesso de peso também contribui para o avanço da doença nesse grupo.
Desigualdade entre regiões agrava o problema
O estudo da OMS mostra que a incidência de câncer evitável varia bastante de acordo com a região e o sexo. Entre as mulheres, a proporção de casos preveníveis vai de 24% no Norte da África e no Oeste da Ásia até 38% na África Subsaariana.
Entre os homens, a maior incidência foi registrada no Leste Asiático, com 57% dos novos casos, enquanto a menor aparece na América Latina e no Caribe, com 28%. Essas diferenças se dão pela exposição desigual aos fatores de risco, como hábitos de vida, poluição, condições de trabalho e infecções.
Além disso, essas diferenças também estão relacionadas com o nível de desenvolvimento socioeconômico de cada região, a eficácia das políticas nacionais de prevenção e a capacidade dos sistemas de saúde de identificar e tratar o câncer de forma precoce.
De acordo com a OMS, investir em medidas de prevenção adaptadas para cada contexto regional — como controle do tabaco, vacinação contra infecções relacionadas ao câncer, melhoria da qualidade do ar e incentivo a hábitos de vida mais saudáveis — pode reduzir de forma significativa o número de casos de câncer no mundo.
Medidas de prevenção podem poupar milhões de vidas
Para a OMS, o relatório deixa mais que claro que a prevenção é uma das armas mais poderosas contra a doença. Medidas como ampliar a vacinação contra HPV e hepatite B, endurecer o controle do tabaco e do álcool, melhorar a qualidade do ar e incentivar hábitos mais saudáveis podem evitar milhões de diagnósticos nos próximos anos.
Além de poupar vidas, investir em prevenção também reduz os custos para os sistemas de saúde e diminui o impacto de todos os tipos de câncer sobre as famílias e comunidades.