Uma técnica experimental baseada em mindfulness — o estado de atenção plena — está permitindo que exames de endoscopia sejam feitos com o paciente acordado, sem a necessidade de sedação ou anestesia geral. Especialistas acreditam que a mudança pode reduzir custos, agilizar o diagnóstico e ampliar a detecção precoce de cânceres da garganta.
A estratégia foi testada em um estudo feito na Universidade de Southampton, na Inglaterra, publicado em janeiro no British Journal of Nursing. Os resultados indicam que exercícios de respiração, relaxamento e comunicação positiva ajudam a diminuir reflexos como tosse, náusea e ânsia de vômito, sintomas bem comuns durante o exame de endoscopia.
“Essa abordagem integrada significa que a maioria dos problemas pode ser diagnosticada em uma única consulta”, explica o professor Reza Nouraei, principal autor do estudo.
O que é e para que serve a endoscopia?
- Procedimento usa um tubo flexível com câmera para visualizar o esôfago, o estômago e o duodeno.
- O aparelho é introduzido pela boca, permitindo a observação direta da mucosa do sistema digestivo.
- Ajuda a investigar sintomas como dor abdominal, queimação, náuseas, vômitos, refluxo e perda de peso.
- Identifica problemas como gastrite, úlceras, inflamações e tumores.
- Permite coletar biópsias, retirar pólipos, controlar sangramentos e tratar varizes do esôfago.
Técnica nova com alta aceitação entre pacientes
Para viabilizar o método, os pesquisadores criaram o grupo de Endoscopia Consciente no Queen’s Medical Centre, na Inglaterra. A equipe treina os profissionais para conduzir o exame com técnicas de relaxamento, respiração guiada e abordagem acolhedora ao paciente.
Além do conforto, os efeitos também são fisiológicos. “A atenção plena ajuda a reduzir a frequência cardíaca e a pressão arterial, além de controlar a tosse e a ânsia de vômito antes que causem desconforto”, afirma Nouraei.
Ao todo, 231 pacientes passaram pelo procedimento experimental com a nova abordagem. Desses, 92% relataram estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a experiência. Para os pesquisadores, os resultados indicam que a técnica pode ser incorporada de forma mais ampla aos serviços de saúde, ampliando o acesso à endoscopia e contribuindo para o diagnóstico precoce de câncer.
Endoscopia e diagnósticos mais rápidos
Atualmente, com a endoscopia sendo feita só em ambiente cirúrgico, a necessidade de sedação limita a oferta do exame, encarece o procedimento e aumenta as filas de espera.
Além disso, muitos pacientes só conseguem acesso ao exame em fases mais avançadas da doença, o que dificulta a identificação de tumores em regiões menos visíveis da garganta e atrasa o início do tratamento.
Com a aplicação das técnicas de atenção plena, os pesquisadores buscaram tornar a endoscopia um exame mais acessível e rápido, realizado em ambiente ambulatorial, sem necessidade de anestesia geral.
A proposta é que pacientes com sintomas como rouquidão persistente, dor de garganta ou dificuldade para engolir consigam passar por uma avaliação completa em poucos minutos e no mesmo dia, sem precisar enfrentar filas longas ou esperar vaga em centro cirúrgico.