O uso das canetas emagrecedoras é um assunto em alta não só no Brasil como no mundo todo. Os medicamentos à base de GLP-1 têm a finalidade de tratar obesidade e diabetes tipo 2.
Nos últimos dias, foram emitidos alertas por autoridades de saúde do Reino Unido e do Brasil por uma possível associação entre os remédios e casos de pancreatite aguda, uma inflamação do pâncreas que, em situações graves, pode levar à morte.
Apesar do sinal de alerta, os especialistas ressaltam que, até o momento, não há comprovação de relação causal direta entre os remédios e a doença.
Alertas após registros de mortes
No mês passado, o Reino Unido divulgou um comunicado reforçando a vigilância sobre medicamentos que imitam o hormônio GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1). Desde 2007, foram notificadas 19 mortes por pancreatite em pessoas que utilizavam esse tipo de tratamento. No mesmo período, quase 1,3 mil casos de inflamação foram relatados às autoridades britânicas.
No Brasil, dados oficiais apontam seis mortes entre 2020 e dezembro de 2025, além de 145 notificações de pancreatite em usuários desses medicamentos. O uso em larga escala para obesidade começou em 2021, o que ampliou significativamente o número de pacientes expostos.
As agências sanitárias reforçam que a notificação não significa necessariamente que o medicamento tenha sido o causador direto do problema.
Risco é considerado raro
Embora os números possam chamar atenção, o número de usuários desses medicamentos é muito maior. Só na Grã-Bretanha, estima-se que cerca de 1,6 milhão de adultos tenham usado medicamentos com GLP-1 entre o início de 2024 e o começo de 2025.
Os especialistas destacam que o risco parece baixo quando comparado ao total de pacientes tratados. Além disso, obesidade e diabetes tipo 2 — condições frequentemente tratadas com esses remédios — já são, por si só, fatores de risco para a pancreatite.
Outro ponto importante é que os bancos de dados de farmacovigilância recebem notificações voluntárias, o que pode dificultar a distinção entre coincidência e efeito real do medicamento.
O que os estudos mostram?
As pesquisas científicas apresentam resultados variados. Uma metanálise publicada em 2025, que reuniu 62 ensaios clínicos randomizados, apontou um aumento pequeno no risco de pancreatite entre usuários de GLP-1 em comparação com placebo.
Por outro lado, outras revisões não identificaram associação significativa. Em um grande estudo com quase 164 mil pessoas com diabetes tipo 2, não houve diferença nas taxas de pancreatite entre quem usava os medicamentos e quem não usava.
Para os especialistas e pesquisadores, o conjunto das evidências disponíveis é, em grande parte, tranquilizador, mas ainda precisa de um acompanhamento mais de perto.
Hipóteses para casos de pancreatite e genética
Entre as possíveis explicações para os casos de pancreatite registrados está a perda de peso acelerada, que pode favorecer a formação de cálculos biliares. Os depósitos na vesícula são uma das principais causas de pancreatite aguda.
No Reino Unido, as autoridades também investigam se fatores genéticos podem fazer com que alguns pacientes fiquem mais suscetíveis à inflamação pancreática durante o uso dos medicamentos. A intenção é, no futuro, identificar perfis de maior risco antes da prescrição.