A enxaqueca é uma das condições neurológicas mais incapacitantes do mundo e pode ser agravada por hábitos comuns do dia a dia. Embora cada paciente tenha gatilhos diferentes, especialistas apontam que alguns comportamentos aumentam significativamente o risco de crises.
Neurologistas ouvidos pelo Metrópoles explicam que mudanças simples na rotina podem ajudar a reduzir a frequência e a intensidade das dores.
1. Sono irregular
Dormir mal, ou em horários muito diferentes, é um dos gatilhos mais comuns para enxaqueca. Tanto a privação quanto o excesso de sono podem desencadear crises.
Segundo o neurologista Felipe Barros, do Hospital Sírio-Libanês, em Brasília, o cérebro tem áreas que regulam o sono e a dor ao mesmo tempo. “O sono irregular atua como um gatilho potente para as crises. Isso ocorre porque o hipotálamo, região que controla o ciclo circadiano, também está relacionado às vias de dor no cérebro”, explica.
A neurologista Talísia Vianez, do Instituto Senescer, em Manaus, reforça que a qualidade do descanso é tão importante quanto a quantidade de horas dormidas. “Sono de má qualidade é um dos gatilhos importantes da enxaqueca. O ideal é manter uma rotina de horários para dormir e acordar e evitar tentar compensar o sono perdido no fim de semana”, afirma.
2. Ficar muitas horas em jejum
Pular refeições também pode aumentar o risco de crises de enxaqueca: a queda da glicose no sangue provoca um tipo de estresse metabólico. A hipoglicemia leva à liberação de hormônios como cortisol e adrenalina, ativando o sistema nervoso simpático e deixando as regiões cerebrais ligadas à enxaqueca mais sensíveis.
Pular refeições representa um estresse para o cérebro. Quando falta glicose, ele tem mais dificuldade de produzir energia, o que pode facilitar o surgimento da crise.
3. Uso excessivo de analgésicos
Embora analgésicos sejam usados para aliviar a dor, o consumo frequente pode ter o efeito contrário. O uso excessivo pode transformar a enxaqueca episódica em crônica.
“Isso pode ocorrer quando analgésicos simples são usados por 15 dias ou mais no mês ou medicações específicas por mais de 10 dias mensais durante três meses”, afirma Barros.
Vianez explica que esse quadro recebe um diagnóstico específico. “Chamamos de cefaleia por uso excessivo de medicação. Após cerca de três meses de uso frequente, o cérebro pode ficar mais sensível à dor e passar a ter crises com mais facilidade”, diz.

4. Estresse emocional
O estresse também está entre os principais fatores que pioram a enxaqueca. Ele pode agir tanto como causa direta quanto como facilitador para o quadro, deixando o cérebro mais hiper-excitável e vulnerável a outros gatilhos. Existe ainda a chamada enxaqueca do relaxamento, quando a crise aparece após um período prolongado de estresse.
O estresse crônico mantém o sistema em alerta por muito tempo e pode facilitar a progressão para uma enxaqueca crônica, que costuma ser mais difícil de tratar.
5. Oscilações no consumo de cafeína
A cafeína pode ajudar ou atrapalhar quem tem enxaqueca, dependendo da quantidade e da regularidade do consumo.
Durante uma crise, ela pode até ajudar no alívio da dor. A cafeína tem efeito vasoconstritor e potencializa a ação de alguns analgésicos. O problema é o consumo excessivo ou as oscilações abruptas, que são gatilhos conhecidos.
O neurologista clínico Heitor Lima, que atende em Brasília, destaca que mudanças bruscas no hábito podem precipitar crises.
“Consumir quantidades excessivas de café ou reduzir o consumo de forma abrupta pode desencadear dor de cabeça. A orientação costuma ser manter uma ingestão moderada e regular”, explica.
Exercício pode ajudar a prevenir
Apesar de piorar a dor durante uma crise, a atividade física regular pode reduzir a frequência de enxaqueca. A prática frequente ajuda a regular o sono, diminui o estresse e promove liberação de endorfinas, reduzindo a frequência e a intensidade das crises.
Para os especialistas, identificar gatilhos individuais e manter hábitos saudáveis são passos essenciais para controlar a enxaqueca e melhorar a qualidade de vida.