A obesidade infantil pode provocar alterações precoces nos vasos sanguíneos e aumentar o risco de doenças cardiovasculares ainda na infância. É o que indica um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 130 crianças com idades entre 6 e 11 anos atendidas na capital paulista.
O trabalho identificou sinais iniciais de inflamação e disfunção no endotélio, camada que reveste os vasos sanguíneos e tem papel fundamental na saúde cardiovascular. Os achados sugerem que o processo de adoecimento pode começar mais cedo do que se imaginava, mesmo antes de o indivíduo ter contato com fatores de risco clássicos, como tabagismo ou consumo de álcool.
A pesquisa foi publicada em novembro de 2025 no International Journal of Obesity e contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Como a obesidade afeta os vasos desde cedo
Segundo a pesquisadora Maria do Carmo Pinho Franco, autora do estudo, a obesidade provoca uma inflamação crônica de baixo grau que mantém o organismo em estado constante de alerta. Esse processo pode acelerar o envelhecimento das células de defesa e provocar danos diretos ao endotélio.
“Os resultados reforçam a gravidade da obesidade infantil e mostram que o problema precisa ser enfrentado desde cedo, inclusive com políticas públicas voltadas à prevenção”, afirma em comunicado.
De acordo com a pesquisadora, o estudo revelou que crianças com sobrepeso ou obesidade já apresentam sinais inflamatórios e alterações na função vascular, indicando que o risco cardiovascular não é apenas futuro.
“Essas crianças não fumam, não bebem e ainda não foram expostas a muitos fatores de risco tradicionais. O único fator presente é o excesso de peso, o que mostra que ele, por si só, pode iniciar esse processo inflamatório”, explica.
Exames laboratoriais mostraram aumento de marcadores inflamatórios no sangue e indícios de dano celular no endotélio. Como essa camada regula a circulação e a saúde dos vasos, alterações precoces podem favorecer o desenvolvimento de aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC) ao longo do tempo.
Prevenção e políticas públicas são essenciais
Além das análises clínicas e laboratoriais, os pesquisadores avaliaram índice de massa corporal (IMC), circunferência abdominal, pressão arterial e a função dos microvasos.
Crianças com excesso de peso apresentaram piores indicadores nesses parâmetros, reforçando o impacto da obesidade sobre o sistema cardiovascular.
O estudo também incluiu ações educativas com familiares e profissionais envolvidos na alimentação das crianças. Foram apresentadas alternativas para reduzir o consumo de ultraprocessados e incentivar escolhas alimentares mais saudáveis no dia a dia.
Para Franco, a prevenção da obesidade infantil exige estratégias amplas e contínuas. “Sem intervenção precoce, essas crianças têm maior chance de se tornar adultos com doenças cardiovasculares e metabólicas, o que representa um desafio importante para a saúde pública e para a sustentabilidade do sistema de saúde”, alerta.
Os pesquisadores defendem que o combate ao excesso de peso na infância deve combinar educação alimentar, incentivo à atividade física e ampliação do acesso aos cuidados de saúde, principalmente em comunidades socialmente vulneráveis.