Pela primeira vez no Mato Grosso, uma criança foi tratada com a Terapia Renal Substitutiva Contínua (CVVHDF), um procedimento de diálise de alta eficiência usado em pacientes críticos com função renal prejudicada. O método pioneiro foi usado durante o tratamento de João Benício Kavano, de 6 anos, que tem uma condição imunológica grave responsável por prejudicar os rins, a Síndrome Hemofagocítica (HLH).
O caso ocorreu no Hospital Santa Rosa (HSR), em Cuiabá, e mostra o avanço do estado em tecnologias para tratar pacientes com doenças de alta complexidade, sem a necessidade de transferência para outros lugares do Brasil. João Benício recebeu alta em meados de março.
“A participação de todos os profissionais envolvidos foi fundamental para o sucesso na recuperação do João Benício. E, claro, a fé do pai e da mãe, que acreditaram até o fim do tratamento”, exalta a nefrologista Emmanuele Reis, coordenadora médica de UTI pediátrica do HSR.
O caso de João Benício
O menino sempre foi considerado pelos pais uma criança agitada, porém aos poucos uma febre e um cansaço persistentes mudaram a rotina do garoto. Com os sintomas contínuos, João Benício foi levado ao hospital e logo suspeitou-se ser uma inflamação articular.
No entanto, rapidamente o quadro evoluiu, afetando os sistemas do organismo da criança. Exames laboratoriais identificaram a presença de parvovírus B19. Apesar de ser comum na infância, foi o vírus que desencadeou o HLH, a doença imunológica grave que provoca um descontrole no sistema de defesa do corpo.
É raro que a síndrome HLH ocorra em crianças de forma primária – o mais comum é a forma secundária, ou seja, desencadeada de outra doença.
“No caso das formas secundárias, associadas a infecções, como a de João, a frequência é maior, mas a gravidade permanece extrema: em pacientes críticos com falência multiorgânica, a mortalidade em centros de referência internacionais pode atingir índices entre 60% e 70%”, afirma Emmanuele.
No quadro de João, além de hiperativar e desregular seu sistema de defesa, também houve o comprometimento do sistema nervoso central, acúmulo de líquidos em cavidades do corpo, insuficiência respiratória aguda e insuficiência renal aguda. Com as complicações, a criança foi internada.
“Ver um filho cercado por monitores, fios e aparelhos é atravessar um território que nenhuma família está preparada para conhecer”, relembra o pai de João Benício, Carlos Kavano Junior.
Uso do tratamento pioneiro e recuperação da criança
Diante do cenário, os médicos decidiram utilizar um tratamento nunca usado em crianças no Mato Grosso: a Terapia Renal Substitutiva Contínua. Ao contrário da hemodiálise convencional, na qual são feitas três sessões semanais de filtração do sangue, o método realiza a hemodiálise continuamente, 24 horas por dia, sendo indicada para pacientes críticos.
A medida ajudou na estabilização metabólica da criança e ajudou o volume dos líquidos no organismo. Concomitantemente, João Benício utilizou medicamentos para combater as inflamações. Exames posteriores mostraram que o parvovírus B19 foi negativado, melhorando os marcadores inflamatórios e as funções cerebral, cardíaca, pulmonar e renal.
Um mês após dar entrada no hospital, o menino recebeu alta. Ele segue monitorado pelos médicos devido às sequelas causadas durante o tratamento da síndrome e recebe reabilitação motora, suporte nutricional e fonoaudiólogo.
“Aos poucos, os sinais vitais estabilizaram. A sonda saiu. Ele voltou a se alimentar e teve a alegria de voltar a andar. Foram dias difíceis, cheios de incertezas, mas também de entrega, competência e humanidade. Cada profissional que cuidou do meu filho foi instrumento de algo maior. Não foi apenas técnica, foi presença, dedicação e compromisso com a vida”, agradece o pai.



