A dengue exerce impacto na saúde pública no Brasil desde que foi introduzida no país, na década de 1980. Mas 2024 ficou marcado como o ano de recordes históricos: foram 6,6 milhões de casos e 6.183 mortes. Embora o lançamento de uma vacina nacional aumente a esperança de uma mudança no jogo, o infectologista e diretor do Instituto Butantan, Esper Kallás, acredita que o caminho ainda é longo e que as medidas de prevenção não podem ser deixadas de lado, mesmo pelos já vacinados.
A Butantan-DV é a primeira vacina do mundo em dose única que protege contra os quatro sorotipos da dengue. O registro foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 8 de dezembro de 2025, para ser utilizada na população com 12 a 59 anos.
Desde então, já foram enviadas 1,3 milhão de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI). Em fevereiro, o Instituto Butantan anunciou a antecipação do envio de outras 1,3 milhão de doses ainda no primeiro semestre deste ano, totalizando 2,6 milhões de vacinas.
Segundo Kallás, essas doses serão entregues até abril. “A gente percebeu que há uma necessidade de doses em maior quantidade no Brasil desde que começamos a montar o nosso programa”, afirma em entrevista ao Metrópoles.
Ainda assim, a imunização deve se restringir aos grupos de maior risco à doença em 2026. O Ministério da Saúde começou a vacinar profissionais de saúde da atenção primária que atuam no SUS em fevereiro. A expectativa da pasta é vacinar 1,2 milhão de médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e agentes comunitários.
Depois deles, o plano é começar a vacinar as faixas etárias mais velhas (com no máximo 59 anos) e expandir para as mais jovens gradativamente, à medida que mais doses são entregues pelo Butantan.
“A prioridade que o Ministério da Saúde vem apontando é imunizar as pessoas com mais idade. O motivo dessa decisão é o fato delas terem chances maiores de desenvolver doença mais grave”, destaca.
Kallás lembra que, pelos critérios da Anvisa — que indica a vacina apenas a pessoas de 12 a 59 anos —, seriam necessárias cerca de 120 milhões de doses para imunizar toda a população nessa faixa etária. Mas o planejamento para uma produção desse tamanho é complexo.
A planta da fábrica deve levar em consideração a complexidade da vacina e a demanda. Por ser um imunizante de dose única, depois que a população for vacinada, não há a necessidade de continuar com a fabricação em larga escala e é preciso encontrar uma nova utilidade para a fábrica.
“Como a gente não tem essa disponibilidade de pronta entrega, vamos demorar alguns anos para conseguir atingir esse número. Começa-se sempre por aqueles que são mais suscetíveis à doença mais grave”, explica.
Proteção por cinco anos
Um estudo feito pelo Instituto Butantan e publicado nessa quinta-feira (5/3) na revista Nature, mostrou que a vacina contra a dengue permanece eficaz por pelo menos cinco anos após a aplicação.
Ao todo, mais de 16 mil voluntários com idades entre 2 e 59 anos participaram do estudo. Depois de cinco anos de acompanhamento, a eficácia geral contra a dengue sintomática confirmada por exame foi de 65%. A proteção para casos graves chegou a 80,5%.
No período de cinco anos — aqueles que apresentam sinais de alarme ou risco de complicações —, nenhuma pessoa vacinada desenvolveu quadro grave de dengue, nem precisou de hospitalização por causa da doença.
Cuidados após a vacinação
O infectologista reforça que, mesmo após tomar a vacina, a população precisa continuar a seguir as medidas de prevenção contra o mosquito Aedes aegypti, como eliminar os focos de água parada.
“O mesmo mosquito pode transmitir outras doenças — chikungunya e zika — e a gente sabe que todas as medidas de prevenção se beneficiam quando são tomadas juntas. Ter uma vacina que seja tão boa quanto a Butantan-DV e abandonar as outras medidas de prevenção [pode faze] o tiro pode sair pela culatra”, aponta.











