Depois do diagnóstico de câncer, é recorrente que os pacientes sintam que perderam o controle sobre a própria vida. A ideia de que o tratamento medicamentoso é suficiente e mais importante que os outros cuidados, no entanto, não condiz com o que mostram estudos recentes.
Hábitos do dia a dia como alimentação, atividade física, sono, vacinação e cuidado com a saúde emocional interferem muito na forma como o corpo reage à doença e às terapias. Eles influenciam no que os médicos chamam de microambiente tumoral, termo usado para descrever como o próprio corpo pode favorecer ou dificultar o crescimento do câncer.
Nesse contexto, mesmo com o tratamento adequado, alguns hábitos ruins podem atrapalhar a resposta do organismo diante da recuperação.
“Existe uma ideia de que, depois do câncer, nada mais faz diferença. Isso não é verdade”, afirma o oncologista Guilherme Harada, do Hospital Sírio-Libanês.
O médico conta as cinco principais crenças que ainda atrapalham o tratamento dos pacientes com câncer. Confira:
1 – “Cortar açúcar cura ou controla o câncer”
Não existe um alimento capaz de “matar” o câncer, nem dieta que substitua o tratamento médico. Cortes radicais na alimentação, principalmente sem orientação, podem enfraquecer o paciente, que precisa de energia para atravessar o tratamento; causar perda de peso, de massa muscular e ainda dificultar o processo da quimioterapia ou da radioterapia.
O que faz diferença, na verdade, é manter uma alimentação saudável e equilibrada. Frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes boas de proteína ajudam o corpo a tolerar melhor o tratamento. O problema real não é o consumo de carboidratos, mas sim o excesso de açúcar adicionado e de ultraprocessados.
2 – “Quem está com câncer precisa ficar em repouso”
O medo de se movimentar ainda é muito comum entre pacientes oncológicos. A noção de que o corpo precisa só de descanso foi revista pela medicina nos últimos anos. Hoje, a prática de atividade física é considerada parte do tratamento, respeitando as limitações de cada um.
Exercícios físicos ajudam a reduzir a inflamação, melhoram a resposta do sistema imunológico e aliviam sintomas como fadiga e dor. Não é sobre virar atleta, mas sair da inércia e começar com caminhadas pequenas, que já trazem muitos benefícios e, aos poucos, é possível ganhar mais ritmo e resistência.

3 – “Quem está com câncer da conta de tudo sozinho”
Essa ideia do paciente de que é preciso “dar conta de tudo sozinho” faz muita gente ignorar o impacto emocional que o câncer pode causar. Medo, ansiedade e tristeza são reações extremamente comuns nesses casos e, quando não são cuidados, acabam piorando o cansaço, o sono e a adesão ao tratamento.
Nesse contexto, estratégias como buscar apoio psicológico, conversar sobre as próprias angústias e aceitar ajuda da rede de apoio são atitudes que contribuem para um processo de cura menos solitário e mais saudável.
“Em oncologia, é de extrema importância cuidar não apenas da saúde física, mas também da saúde mental. A jornada do câncer afeta vários aspectos da vida, incluindo relacionamentos, trabalho, lazer e autoestima”, afirma a pesquisadora Cristiane Decat Bergerot, chefe do departamento de Psico-Oncologia do Grupo Oncoclínicas.
4 – “Vacinas fazem mal e podem causar câncer”
A desinformação sobre vacinas ainda afasta muita gente de uma ferramenta importante de prevenção. Parte dos cânceres está associada a infecções evitáveis, como as causadas pelo papilomavírus humano (HPV) e pela hepatite B, e é exatamente a vacinação que reduz o risco desses tumores.
Além disso, durante o tratamento oncológico, manter as vacinas em dia ajuda a evitar gripes e pneumonias, que podem causar internações e até atrasar sessões de quimioterapia ou radioterapia.
5 – “Parar de fumar ou beber não faz diferença após o diagnóstico”
Muitos pacientes acreditam que, por já terem câncer, continuar fumando ou bebendo não faz diferença. A lógica é: “Já estou doente, então parar agora não muda nada”. Essa crença é falsa e acaba prejudicando o tratamento.
Parar de fumar e reduzir ou cortar o álcool diminui o risco de complicações, melhora a resposta às terapias e reduz a chance de surgimento de novos tumores. Do ponto de vista oncológico, não existe consumo seguro dessas substâncias, por isso, quanto mais cedo a interrupção, maiores tendem a ser os ganhos durante o tratamento e na recuperação.