Há décadas, cientistas perceberam que raramente um paciente com Alzheimer tem histórico de câncer. Um novo estudo feito com camundongos dá um passo importante para solucionar este mistério e, possivelmente, ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos contra a doença, que é o tipo mais comum de demência em pessoas idosas.
A pesquisa publicada na revista Cell, nessa quinta-feira (22/1), mostrou que uma proteína produzida por células cancerígenas se infiltra no cérebro e ajuda a desfazer os aglomerados de proteínas que encontra por lá.
Esse acúmulo de proteínas, especialmente as beta-amiloide, é apontado como um dos principais causadores do Alzheimer. As placas que se formam entre os neurônios prejudicam a comunicação celular, causam inflamação e levam à perda da memória e ao declínio cognitivo.
O que é o Alzheimer?
- O Alzheimer é uma doença que afeta o funcionamento do cérebro de forma progressiva, prejudicando a memória e outras funções cognitivas.
- É o tipo mais comum de demência em pessoas idosas e, segundo o Ministério da Saúde, responde por mais da metade dos casos registrados no Brasil.
- O sinal mais comum no início é a perda de memória recente. Com o avanço da doença, surgem outros sintomas mais intensos, como dificuldade para lembrar de fatos antigos, confusão com horários e lugares, irritabilidade, mudanças na fala e na forma de se comunicar.
Estudo de 15 anos
O novo estudo é fruto de 15 anos de pesquisa do neurologista Youming Lu, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong. Durante o experimento, três tipos de tumores humanos — pulmão, próstata e cólon — foram transplantados em modelos animais com Alzheimer.
Entre eles, os camundongos com câncer não desenvolveram aglomerados de placas no cérebro.
Após analisar as proteínas secretadas pelas células cancerígenas, os pesquisadores chegaram a uma única que era capaz de atravessar a barreira hematoencefálica e infiltrar o cérebro, a cistatina C.
Novos testes feitos nos animais mostraram que a cistatina C se liga às moléculas que formam as placas cerebrais relacionadas ao Alzheimer, ativando outra proteína, a TREM2, que sinaliza as células do sistema imunológico de que é preciso proteger o cérebro.
O mais surpreendente foi ver que essas células trabalham para eliminar as placas. No estudo, os ratos que passaram por esse processo tiveram melhores resultados em testes cognitivos.
Agora, os pesquisadores estudam se esse mesmo mecanismo acontece em humanos. Se for confirmado, eles podem abrir caminho para uma nova geração de pesquisas sobre medicamentos voltados à prevenção e tratamento do Alzheimer.
Câncer e Alzheimer
Uma metanálise com dados de mais de 9,6 milhões de pessoas, publicada em 2020, mostrou que o diagnóstico de câncer em algum momento da vida estava associado à redução de 11% na incidência de Alzheimer.
Ainda assim, é difícil fazer a relação direta entre as duas doenças, uma vez que vários outros fatores podem influenciar esta equação. Um paciente oncológico poderia ter falecido antes de chegar à idade em que os sintomas do Alzheimer costumam aparecer ou ter o comprometimento cognitivo devido ao uso de medicamentos do tratamento do tumor, dificultando a separação dos diagnósticos, por exemplo.








