A reposição hormonal é uma das estratégias mais eficazes para aliviar os sintomas da menopausa, mas está longe de ser uma solução universal. Apesar dos benefícios, há situações em que o tratamento não deve ser indicado, e ignorar essas restrições pode trazer riscos sérios à saúde.
Especialistas reforçam que a decisão nunca é automática. A avaliação precisa considerar histórico clínico, doenças associadas e o perfil individual de cada paciente.
Existem situações em que a reposição hormonal é formalmente proibida, chamadas de contraindicações absolutas. Nesses casos, o risco supera qualquer benefício possível.
De acordo com a ginecologista Agatha Medrado, da clínica AMO, em Salvador, essas condições incluem câncer de mama atual ou prévio, trombose venosa ativa, doença hepática e sangramento uterino sem diagnóstico.
“A terapia de reposição hormonal não deve ser realizada em pacientes com câncer de mama atual ou prévio, em casos de sangramento uterino sem investigação prévia, trombose venosa ativa e doença hepática ativa”, afirma.A lista também pode incluir câncer de endométrio, embolia pulmonar, infarto recente e AVC.
Contraindicação absoluta x relativa: o que muda na prática
Nem todo risco impede completamente o uso de hormônios. A medicina trabalha com dois níveis de contraindicação: absoluta e relativa.
A ginecologista Vitória Espíndola, do Hospital Brasília, explica que a diferença está no grau de risco envolvido.
“As contraindicações absolutas são aquelas situações em que o uso do hormônio é formalmente proibido, pois o risco de um evento grave supera qualquer benefício”, diz.
Já as contraindicações relativas exigem análise individualizada. Casos como hipertensão controlada, diabetes ou histórico de trombose entram nessa categoria e podem permitir o uso com cautela, dependendo do quadro.
Histórico familiar e doenças cardiovasculares: cuidado, mas não proibição
Um erro comum é assumir que histórico familiar de câncer de mama impede automaticamente a reposição hormonal. Isso não é verdade, mas também não significa ausência de risco. Segundo a ginecologista e obstetra Monique Novacek, da Clínica Mantelli, em São Paulo, a decisão precisa ser personalizada.
“O histórico familiar de câncer de mama não impede automaticamente a reposição hormonal; a avaliação deve ser individualizada e considerar o risco global da paciente”, explica.
O mesmo vale para doenças cardiovasculares. Nem sempre elas contraindicam o tratamento, mas exigem investigação detalhada e, muitas vezes, acompanhamento conjunto com cardiologista.
Há alternativas para quem não pode fazer reposição?
Sim. Muitas mulheres acreditam que precisam suportar os sintomas da menopausa quando a reposição hormonal não é indicada, o que não é verdade.
Existem opções não hormonais eficazes, como antidepressivos específicos para fogachos, terapias locais para ressecamento vaginal e mudanças no estilo de vida.
Além disso, ajustes na forma de administração, como uso transdérmico em vez de oral, podem reduzir riscos em alguns casos, mas não liberam o tratamento quando há contraindicação absoluta.
A maior falha não está na reposição hormonal em si, mas no uso sem critério. A ideia de que o tratamento é “natural” ou seguro para todas as mulheres não se sustenta na prática clínica. A decisão deve sempre considerar o equilíbrio entre risco e benefício, e isso varia de paciente para paciente.
Ignorar contraindicações ou simplificar a avaliação pode transformar um tratamento eficaz em um problema de saúde evitável.