No final de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) surpreendeu o mundo ao informar que estávamos vivendo uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (Espii) — o nível mais alto de alerta — por causa do coronavírus. Àquela altura, existiam relatos de casos de Covid em 19 países, com transmissão entre humanos na China, Alemanha, Japão, Vietnã e Estados Unidos.
Ao longo dos anos seguintes, passamos por altos e baixos, com lockdowns, fechamento das fronteiras terrestres e aéreas, medo, insegurança e luto. Mas também vivemos a esperança do lançamento de vacinas, reabertura do comércio, reencontros com familiares e queda expressiva do número de casos e mortes provocadas pela doença.
Embora o cenário seja muito mais otimista após seis anos, os casos de Covid-19 continuam a ser registrados. Especialistas alertam que o vírus foi controlado, mas não eliminado. Ele continua a circular, podendo passar por mutações para se adaptar ao novo cenário.
“Seis anos depois, a Covid-19 não desapareceu. O Sars-CoV-2 continua a circular globalmente, a evoluir, a reinfectar e a causar doenças graves e Covid longa. Todos ainda sentimos os impactos mais amplos destes seis anos”, escreveu a diretora técnica da OMS, Maria Van Kerkhove, epidemiologista que lidera a resposta da agência à doença desde 2020.
Maria usou a conta pessoal no X para fazer um panorama sobre os últimos seis anos, lembrando dos ataques duros que a OMS sofreu. Um dos críticos mais duros foi o presidente Donald Trump, que voltou a usar a resposta da OMS à pandemia como justificativa para retirar os Estados Unidos como um dos principais investidores da agência.
“Alguns ainda dizem que a OMS foi ‘muito lenta’ para declarar uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (Espii). Grande parte dessa retórica reflete viés retrospectivo e politização. As decisões foram tomadas com base nas informações disponíveis no momento em que os eventos se desenrolaram — o contexto é importante”, disse.
Na época, a OMS fez importantes mudanças com base em revisões independentes, incluindo a elaboração do Regulamento Sanitário Internacional (RSI, na sigla em inglês), além da adoção do Acordo de Pandemia da OMS.
“Os sistemas evoluem porque aprendemos”, avaliou a epidemiologista. “Ao longo do tempo, minhas mensagens evoluíram conforme a situação mudava”.
Maria Van Kerkhove recorda que os anos de 2020 e 2021 foram voltados para a resposta a emergências; 2022 e 2023, à transição e alertas; e 2024 e 2025 para a vigilância e preparação. “Minha mensagem para 2026 é simples: não se acomodem diante das ameaças que enfrentamos”.
Colaboração no combate à pandemia e barreiras
O compartilhamento de dados entre cientistas de todo o mundo foi fundamental para acompanhar o surgimento de novos surtos e variantes do coronavírus.
“A vigilância epidemiológica e o compartilhamento de informações são realmente importantes”, considera Maria Van Kerkhove.
Ao mesmo tempo, as desigualdades entre os países foram escancaradas para o mundo. Países de renda mais baixa precisaram contar com o consórcio Covax Facility para terem acesso às vacinas.
“Acredito que os países e os fabricantes têm obrigação de cooperar porque, desta maneira, ajudam a acelerar o fim da pandemia”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em outubro de 2021.
“A Covid-19 expôs e exacerbou as falhas políticas dentro e entre as nações. Isso corroeu a confiança entre pessoas, instituições e governos alimentados por uma torrente de desinformação”, pontuou”, apontou Ghebreyesus em 2023.
Fim da emergência
O fim da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (Espii) foi anunciado por Ghebreyesus em 5 de maio de 2023. A decisão não significou, no entanto, que a pandemia chegava ao fim, uma vez que o vírus continuava — e continua até hoje — a infectar pessoas em todos os continentes.
A experiência deixou como legado da Covid e aprendizado para patógenos ferramentas como: vacinas atualizadas, tratamentos eficazes, sistemas de vigilância e medidas de prevenção.
“A estratégia atualizada da OMS para a Covid-19 concentra-se na proteção, integração e preparação — incorporando a prevenção e o tratamento da doença nos sistemas de saúde de rotina, e não tratando-a como um problema do passado”, destaca Maria Van Kerkhove.
Quase três anos depois, especialistas em saúde pública alertam que cada vez menos pessoas fazem testes para identificação do coronavírus quando têm sintomas gripais. Segundo Maria, a redução nos testes e na notificação de casos criou lacunas de dados crescentes, dificultando a detecção precoce de alterações e a tomada de medidas rápidas. “Não devemos desmantelar os sistemas que construímos — devemos fortalecê-los”, considera.
A edição mais recente do Boletim InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgada na quinta-feira (5/2), mostra que nas últimas quatro semanas, a Covid-19 foi responsável por 22,3% dos casos dos vírus respiratórios no país e 45% das mortes pela doença.
Para 2026, a epidemiologista pede:
- Proteção aos mais vulneráveis;
- Manter a vigilância rigorosa e o compartilhamento de informações;
- Investir em pesquisa e tratamento da Covid longa;
- Preparação antes da próxima crise, não depois.
“Seis anos depois, o que sabemos é claro: a Covid-19 não desapareceu; as vacinas reduzem os casos graves da doença; a vigilância epidemiológica economiza tempo — e vidas; a preparação e a prontidão devem ser contínuas”, destaca a diretora da OMS.













