Você já ouviu falar em dieta carnívora? O plano alimentar tem sido bastante difundido pela internet por usuários que relatam ter tido perda rápida de peso, redução de inflamações e melhora do metabolismo dando prioridade para as carnes no cardápio.
A ideia por trás da dieta carnívora é simples: o consumo exclusivo de produtos de origem animal, especialmente proteínas, como carnes vermelhas, peixes, frutos do mar e ovos. Já a ingestão de vegetais, frutas, grãos e carboidratos é proibida.
Para a nutricionista Manuela Dolinsky, se submeter a planos alimentares muito restritivos, como a dieta carnívora, vai de encontro com a plasticidade alimentar básica dos seres humanos para viver com saúde.
“Há evidências consistentes de maior consumo de alimentos de origem animal por humanos em comparação a outros primatas, mas isso não equivale a um padrão ‘exclusivamente carnívoro’ como regra evolutiva. Ao contrário, a síntese de estudos sobre dietas em diferentes contextos sugere combinações de alimentos animais e vegetais ao longo do tempo”, aponta a presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN).
Em relação a estudos que recomendariam a dieta, Manuela diz que os principais têm limitações importantes a serem levadas em consideração, como autorrelato, ausência de grupo controle, viés de seleção e incerteza sobre efeitos sustentados com o passar do tempo.
A nutricionista Cynara Oliveira ressalta que a maioria dos trabalhos são apenas observacionais e de curto prazo, o que também reduz a confiabilidade dos resultados.
“A ciência nutricional ainda não reconhece a dieta carnívora como um padrão alimentar seguro contínuo. Não há evidências sólidas de segurança ou benefícios a longo prazo”, afirma a supervisora de nutrição do Hospital Santa Lúcia, em Brasília.
É possível obter todos os nutrientes através da dieta carnívora?
Um dos grandes problemas de restringir a alimentação a apenas um grupo de alimentos é o risco de não conseguir todos os nutrientes necessários para viver bem e com qualidade de vida.
Mesmo que certos micronutrientes possam ser obtidos através de combinações específicas de alimentos de origem animal, a maioria das análises indicam que a restrição extrema pode tornar o recebimento de outros nutrientes inadequado, especialmente as fibras. Além disso, o plano alimentar pode deixar os níveis de sódio no corpo muito acima dos recomendados.
“Alguns nutrientes estão presentes em alimentos de origem animal, porém outros, como fibras, vitamina C, certos antioxidantes e compostos bioativos, são escassos ou ausentes. Isso pode levar a deficiências nutricionais ao longo do tempo”, aponta Cynara.

Entre os principais riscos associados à dieta carnívora a curto e longo prazo, estão:
- Constipação e alterações intestinais, devido a ausência de fibras;
- Desequilíbrios metabólicos;
- Aumento dos níveis de colesterol ruim (LDL);
- Sobrecarga renal;
- Elevação do risco cardiovascular e câncer;
- Alterações na microbiota intestinal;
- Deficiências nutricionais;
- A longo prazo, a restrição alimentar extrema pode provocar até a morte.
“É importante diferenciar relatos individuais de curto prazo de evidências robustas sobre segurança e efetividade em longo prazo. No momento, a ‘dieta carnívora’ carece de estudos controlados e acompanhamento prolongado que permitam concluir segurança populacional”, conclui a presidente do CFN.
O que realmente funciona
A recomendação nutricional mais eficaz segue a mesma: o consumo de macronutrientes variados, como proteínas, carboidratos e gorduras saudáveis, obtidos de alimentos in natura e minimamente processados diversos, tanto de origem animal quanto vegetal.
“A nutrição deve respeitar a individualidade, mas também a complexidade do corpo humano. Dietas muito restritivas tendem a trazer riscos quando mantidas por longos períodos. Uma alimentação equilibrada, com variedade de alimentos naturais, continua sendo a abordagem mais segura e sustentável para a saúde”, avalia Cynara.
Antes de iniciar qualquer tipo de rotina alimentar, é essencial procurar um profissional habilitado para se orientar e ter acesso a recomendações que respeitem as particularidades de cada organismo.